terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Saúde mental e qualidade de vida, qual a relação possível?

Desde 1948, com a definição oficial da Organização Mundial de Saúde, o conceito de saúde, sofreu algumas alterações importantes, especialmente no que diz respeito a saúde mental. Situação esperada e previsível, dada às modificações de hábitos e condutas enfrentadas pela população mundial nos tempos atuais. Se antes saúde era vista apenas como “ausência de doenças”, a definição de Gonçalves (1981) propõe uma espécie de ementa a definição da OMS: “ a saúde não é entendida como ausência de doença, nem só um completo bem-estar físico, psíquico e social, mas a atitude ativa de fazer face às dificuldades do meio físico, psíquico e social, de entender sua existência e, portanto, de lutar contra eles.” Neste conceito podemos destacar o fator interacional e a relação entre as pessoas e seus comportamentos frente as dificuldades decorrentes dessa interação. Assim faz-se presente o trabalho do psicólogo, frente a questões relativas a fatores emocionais gerados através do relacionamento entre seres humanos, e como esses fatores vão se organizar na vida do indivíduo.
Neste contexto, a Psicologia Clínica vai ter seu trabalho direcionado para a capacidade de adaptação do ser humano às diversas condições de vida, ou seja, a forma como cada um vai se posicionar diante das mais variadas situações e adversidades, buscando o tão almejado bem-estar. Segundo Freud (1969): “serve à finalidade prática de nos capacitar para a defesa contra sensações de desprazer que realmente sentimos ou pelas quais somos ameaçados.” Assim, a idéia de promoção da saúde esta diretamente relacionada ao fator qualidade de vida QV presente nas diversas instâncias da vida das pessoas, fator que vai depender tanto dos aspectos psicológicos quanto dos sociais.
Para tanto faz-se necessário citarmos a definição da OMS, agora para o fator QV como sendo “a percepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, dentro do contexto dos sistemas de cultura e valores nos quais esta inserido e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações.”(GAMEIRO, CARONA et al.,2008) Ao relacionarmos QV e saúde mental, nos deparamos como uma série de estudos científicos avançados que nos levam a entender o quanto um fator esta relacionado ao outro. Que vai desde o interesse do paciente em seguir o tratamento e as recomendações feitas pela equipe médica-quando internado em um hospital, por exemplo- até as conseqüências decorrentes de uma patologia como a depressão. Num sistema de saúde sobrecarregado como o brasileiro, a relação entre QV e saúde mental vem a ser de grande importância, uma vez que pacientes com tendência a distúrbios mentais, procuram muito mais as clínicas gerais do que os ambulatórios de saúde mental se queixando de sintomas físicos (somatização), o que pode comprometer ainda mais a qualidade já precária do atendimento público. Como ressalta Galera, Teixeira (1997): “Esses critérios de QV ressaltam a idéia de que a qualidade de vida é um elemento importante na avaliação e no planejamento da assistência, podendo contribuir para a efetivação de uma prática mais voltada para atender às reais necessidades do doente.”
E para que este planejamento seja o mais eficiente possível, as equipes de saúde devem dialogar entre si, para que cada especialidade possa agir dentro de sua área de atuação para permitir uma melhor qualidade no atendimento. Para se alcançar uma boa QV, partimos então do pressuposto que o sujeito possa ter uma boa saúde mental, que vai lhe permitir meios de cuidar bem de si e de alcançar seus objetivos e metas nos mais variados setores da vida, tanto afetivos quanto pessoais e profissionais. Uma vez que a capacidade de desenvolvimento, todos possuem, falta apenas condições de colocar em prática essas qualidades, muitas vezes reprimidas por convenções sociais e culturais. A liberdade de escolha é uma das principais armas que o ser humano conta no desenvolvimento de suas potencialidades. Freud (1969): “Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância das outras pessoas.” Ou quando o sujeito já tentou isso sem sucesso, resta-lhe a possibilidade de tentar alternativas. A fuga do sofrimento é uma possibilidade possível de se alcançar, embora difícil e que vai exigir certa dose de coragem e determinação por parte da pessoa que sofre, mais que se vê diante de situações que lhe impõem um desafio ainda maior. Novamente, Freud (1969): contudo, os métodos mais interessantes de evitar o sofrimento são os que procuram influenciar o nosso próprio organismo. Em última análise, todo sofrimento nada mais é do que sensação; só existe na medida em que sentimos, e só o sentimos como conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo esta regulado.” O primeiro passo quem dá é o sujeito, então vamos ao trabalho.


REFERÊNCIAS:

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização [cd-rom]. Rio de Janeiro: Imago; 1969.


GALERA, Sueli Aparecida Frari;TEIXEIRA, Marina Borges. Definindo qualidade de vida de pessoas portadoras de problemas de saúde mental. Rev. Latino-Am. Enfermagem.[online]. 1997 [capturado em 15 jul 2009]; 5: 69-75.Disponível em:


GAMEIRO, Sofia; CARONA, Carlos; PEREIRA, Marco; CANAVARRO, Maria Cristina; SIMÕES, Mário; RIJO, Daniel; QUARTILHO, Manoel João; PAREDES, Tiago; SERRA, Adriano Vaz. Sintomatologia depressiva e qualidade de vida na população geral. Rev. Psicologia, Saúde e doença [on line]. 2008 [capturado em 15 jul 2009]; 9:103-112.Disponível em:


GONÇALVES, Aguinaldo. A saúde e a população: contribuição para o entendimento deste binômio em nosso meio. Ciência e cultura. 1981, 33 (11): 1425-1429.


JURKIEWICZ, Rachel. Psicologia Clínica e saúde. Psicologia Argumento. 2003, 21 (34): 41-47.

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